O amor fora da lei.

“Coração na Boca” resulta de uma convicção: a de que os sentimentos são hoje muito mais requintados. No amor ou no ódio, o ser humano evoluiu. Nossa capacidade de perceber o outro é bem mais sofisticada que a de nossos antepassados.

Assim, necessariamente, as relações amorosas também se tornaram mais complexas e difíceis. Parece não haver mais dúvida de que, para dois ou mais seres que se amam, já não se aplica o estar obrigatoriamente solteiro, casado ou viúvo. Mais importante que o estado civil é o estado de alma, que nos leva a querer experimentar o outro, saber do outro, viver o outro, física e espiritualmente, com todos os riscos e perigos que esta iniciativa implica. As possibilidades de relacionamento são múltiplas e diversificadas.

Uniões matrimoniais e extraconjugais, namoros, noivados, flertes, desquites, divórcios, morar junto, ficar com, dar um tempo: os legisladores tentam, a todo custo, entender as razões do coração. Criam novos artigos e parágrafos na Lei, determinam quem é companheiro e companheira, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a idade mínima para se fazer o amor etc etc etc… Mas os sentimentos são libertários, anarquistas, mutantes e criativos. Os sentimentos são vanguarda. Sempre.

“Coração na Boca” é uma história de amor fora da lei. Um amor diferente, desmedido, que os legisladores, mais uma vez, terão de se empenhar muito para definir e regulamentar. Quem sabe um dia?

A história

Encenada pela primeira vez em 1997, “Coração na Boca” é uma comédia dramática que fala do amor surgido na adolescência entre dois japoneses, Yumi e Massao, e um brasileiro, Luiz. Os três dividem o mesmo apartamento. Há sempre muita amizade, companheirismo e cumplicidade entre eles. No convívio cotidiano, criam fortes vínculos afetivos: saem e viajam juntos, estudam juntos, fazem juntos as refeições. São artistas e sonhadores: Luiz quer ser escritor. Massao dedica-se à música, quer ser maestro, e Yumi, escultora.

Yumi e Massao começam a namorar. Na noite em que completam o primeiro ano de namoro, Luiz prepara um jantar romântico, de surpresa, só para os dois. Depois de tudo pronto, se despede, quer deixá-los a sós. Mas, por insistência dos amigos, é convidado a permanecer e a participar da comemoração. Fica claro, a partir daí, que a relação de amizade entre os três é bem mais forte do que o romance entre Yumi e Massao. O clima poético criado por Luiz para aquela noite é perfeito. A música no volume ideal, a luz das velas, a comida, a mesa posta. A conversa apaixonada revive sempre momentos que os três passaram juntos desde que se conheceram. A bebida desinibe e desperta sentimentos de verdadeiro amor entre eles. A necessidade de manifestar esse amor fisicamente torna-se inevitável. Yumi, Massao e Luiz dançam abraçados, beijam-se e se acariciam. Naquela noite, os três vão para cama pela primeira vez e fazem amor. A experiência bem sucedida haverá de marcá-los para sempre.

Ainda solteiro, Luiz é hoje escritor conhecido, mora no exterior. Massao e Yumi também são artistas consagrados, moram no Rio de Janeiro. Estão se separando depois de sete anos de casados. Ao saber a notícia, Luiz volta ao Brasil, sinceramente disposto a tentar a reconciliação do casal. Desde o casamento de Yumi e Massao, os três não se veem. Falam-se apenas por telefone. A partir desse novo encontro, uma série de revelações vão conduzindo a trama para situações imprevistas e de suspense, que escapam inteiramente ao controle dos três personagens, mas que culminam num surpreendente final feliz.

Quem manda no amor? Quem?

“Há muitos casais, infiéis casais, que se toleram por interesse, medo ou acomodação. Se, ainda assim, essa relação de conveniência é aceita, por que então a de três pessoas que se amam verdadeiramente deve ser condenada?”. Essa passagem de “Coração na Boca” sintetiza a questão central da peça, que esteve em cartaz no Rio de Janeiro, São Paulo, foi apresentada em várias capitais do país e convidada a participar de festivais no Brasil e no exterior. Traduzida para o inglês com o título “Three of Hearts”, foi encenada na Yale University como matéria de estudo, palestras e debates.

O tema é polêmico, sem dúvida. Há muitas histórias sobre triângulos amorosos, mas, seja qual for a trama, seus ingredientes dramáticos são basicamente os mesmos: atração, traição e, por fim, impossibilidade de convívio ou rejeição de um dos vértices. “Coração na Boca” mostra ao público a possibilidade de outra forma de viver e se relacionar. Como não há traição nem rejeição – porque o sentimento de amizade prevalece – os conflitos são outros. E bem maiores. A história de amor entre Massao, Yumi e Luiz faz com que a plateia, mesmo a mais conservadora, se pergunte ao sair do espetáculo: afinal, o que há de errado numa fidelidade a três?