‘C asa de Prostituição de Anaïs Nin’ é fruto da paixão. Paixão por uma época, paixão por um estilo de vida, paixão por Anaïs Nin e Henry Miller, amantes e escritores que, com suas obras, me invadiram a alma e devassaram o coração. Meu texto resulta justo desse súbito, violento e amoroso encontro.

A peça se passa em Nova York, no início dos anos quarenta. Henry e Anaïs escrevem contos eróticos para sobreviver. Com a colaboração do amigo Gonçalo, criam uma espécie de prostíbulo literário para atender à demanda do velho onanista e tirânico, que lhes compra as histórias e lhes obriga a uma produção frenética de baixíssima qualidade. É neste cenário de conflito que surgem as instigantes personagens dos contos eróticos e, com elas, o embate de ideias, os questionamentos, a revolta e a explosão criativa dos três apaixonados escritores, que dividem o mesmo trabalho e o mesmo teto.

Para dar vida e forma a esses seres tão queridos, recorri não ao barro, mas aos ossos, carne, sangue, nervos, vísceras e poesia de que todos somos feitos.

Seguem alguns trechos da peça.

gangorra

Quem não quer o êxtase do amor e depois conhecer de pleno e não apenas de perto a leveza da paz descansada e o aconchego de um abraço verdadeiro? Todos queremos voar. Mas a força da gravidade nos atrai para baixo. A força da gravidade. Estamos irremediavelmente divididos entre o voo da alma e o peso do corpo. E ainda que um dia na ciência, consigamos romper as barreiras do som e da luz, ainda que um dia, por progresso, cheguemos a passear pelo espaço sem gravidade. De nada nos irão valer estas conquistas. Nossa alma continuará fatalmente presa ao peso do nosso corpo, numa gangorra de equilíbrio precário e desigual.

Gangorra – vida, brinquedo, brincadeira em que a alma por absurdo fica sempre no alto, mas de castigo. É, meu corpo me deixa a alma assim: no alto, mas de castigo. Só quando ele deixa e dá impulso é que minha alma se solta e desce à Terra. O balanço é sempre ele com seu peso que determina. E minha alma, sopro divino, se contenta com este parceiro desmedido. Brutamontes que ama a seu jeito – um jeito primitivo e bestial. Por isso, meu corpo só é livre quando se desapega. E minha alma só se solta, quando desce à Terra.

a cama e o travesseiro

A cama desfeita me lembra sexo. A mente só pede corpos perfeitos, quentes e depravados. O resto não existe. Como se há muito não o visse, corro para o travesseiro, que me é todo um dorso, e depois um rosto, e um peito que respira, sem pernas, braços ou pescoço. Um bloco de carne macia como pano. Um pedaço de corpo por inteiro. Fico com o meu travesseiro, dizendo sem medo que o amo. Ficamos assim num abraço apertado de amigos. Onde estão a língua, a saliva? Onde está o pau do meu travesseiro? Meu travesseiro dorme de bruços o sono dos justos. Então, de uma de suas costelas, faço a cama – linda e sensual! A cama… Que é toda um ventre que nos põe em posições de feto, de filho e de amante… Comi a minha cama. Sangrei-a e a engravidei de fantasias sórdidas, de sonhos puros e infantis…

A cama e o travesseiro. Seres perfeitos, que se entregam plenos a qualquer um que chegue: homem, mulher, velho e criança. Pretos, brancos e amarelos. Doentes, sábios e ignorantes, monges e devassos, que importa?, gregos e troianos!

Amor e sexo. E depois, a paz, o sono. É aqui nestes quatro pontos cardeais que nasce o mundo inteiro. Eu, você, a cama, e o travesseiro. Meu mundo é retangular. Meu centro do universo é a cama. Daí em diante tudo é abismo. Tudo, mistério. Não há nada que o ser humano veja com nitidez fora dessas quatro linhas. Lugar algum onde navegue com segurança. A proteção verdadeira, o cuidado e o cafuné vivem no leito. E por mais que se conheçam, que se aventurem outros limites, o que se quer em vida, depois de nascer, é amar, descansar e morrer na cama. Queria levar o mundo inteiro pra cama.

entendimento é coisa complicada

Me aflijo quando não consigo perceber o que me dizem. Quando ouço um som, uma língua estrangeira que não compreendo. Quando o pensamento é truncado e confuso. Quando, por preconceitos, somos radicais e surdos. Me aflijo quando não consigo expressar meus sentimentos, quando me faltam as palavras certas, quando não alcanço a sensibilidade de um poema. Quando não tenho o conhecimento específico que me permita argumentar com o médico, o técnico ou o cientista. Me aflijo e me entristeço quando o fanatismo político e a imposição de dogmas religiosos impedem o diálogo, a possibilidade de uma nova ideia… A música é mais universal. Notas musicais, combinadas, são mais acessíveis que os fonemas.

Muitas vezes o corpo diz mais que a palavra. O contato físico, o olhar, um simples gesto… Mas acredito que os sentidos ainda dizem mais que o corpo. No pleno encontro dos sentidos, conversamos horas e não pronunciamos uma única palavra. Você me entende?

Ficha técnica

Autor: Francisco Azevedo
Direção Geral: Ticiana Studart

ELENCO

Primeira montagem: Dora Pellegrino, Ricardo Kosowski, Augusto Junior, Eduardo Paranhos, Fátima Domingues, Johayne Ildefonso, Leonardo Serrano, Miwa Yanagizawa, Paola Luna.

Segunda montagem: Dora Pellegrino, Felipe Camargo, Leonardo Netto, Sebastião Lemos, Fátima Domingues, Miwa Yanagizawa, Christovam Neto, Paola Luna, Fred Benedini.

Terceira montagem: Lucélia Santos, Walney Costa, Leonardo Netto, Sebastião Lemos, Miwa Yanagizawa, Fátima Domingues, Graciella Pozzobon, Gustavo Buarque, Johayne Ildefonso.

Cenografia: Dóris Rollemberg
Iluminação: Aurélio de Simoni
Figurino: Mauro Leite (primeira montagem); Ney Madeira (segunda e terceira montagens)
Direção de movimento: Marcia Amaral (primeira montagem); Sueli Guerra (segunda e terceira montagens)
Fotografia: Marcia Kranz, Silvio Pozatto
Direção de Produção: Rose Dalney (primeira montagem); Carla Prujansky (segunda montagem); Sérgio Saboya (terceira montagem)