Capa do livro Os novos moradores de Francisco Azevedo

Capa do livro “Os novos moradores”

Trecho da entrevista concedida a Juliana Krapp no Blog da Editora Record

Suas tramas são intensas e caudalosas, repletas de surpresas e de histórias que se entrelaçam. Como você se inspira para criar seus personagens e narrativas? Qual a gênese deste “Os novos moradores”?

Não faço mais que estar atento. Nem preciso ir longe, basta sair à rua, olhar ao redor. A vida é assim: intensa, caudalosa, repleta de surpresas e de histórias que se entrelaçam, como você diz. Se prestarmos atenção, há personagens e mais personagens com tramas elaboradíssimas andando pelas calçadas, se esbarrando, anônimos. Personagens fantásticos que, de repente, vêm ao meu encontro e me comovem e me inspiram. Personagens que, depois (em planos paralelos, ou na imaginação, não sei), voltam a me procurar, porque precisam que eu conte seus dramas, tribulações e anseios. Os novos moradores – como todos os outros romances e peças que escrevi – nasceu deste observar cotidiano, desta disposição para chegar ao outro e, desafio maior, tentar compreendê-lo.

Nas análises sobre sua ficção, é comum que se aponte o olhar sobre as relações familiares como uma característica central. Mas a transgressão de costumes também é um elemento muito marcante, concorda? Como os dois – família e transgressão – se conjugam?

Se formos ao dicionário, saberemos que “transgredir” é, antes de tudo, “avançar”, “ir além”. Só depois significa não cumprir uma ordem, uma regra ou o que seja. Por outro lado, sabemos que a família é nosso laboratório inicial. Nela, por nossos pais ou responsáveis, somos testados e pesquisados desde que nascemos até a adolescência ou a independência que nos permita sair de casa, ou seja: a independência que nos autorize “avançar”, “ir além”, ver o mundo com nossos próprios olhos, nos submetermos aos nossos próprios testes, nos examinarmos do nosso jeito, nos testarmos, uma, duas, três, quantas vezes for, corrermos riscos com as experiências… É assim que crescemos e evoluímos. Portanto, por mais dolorosa que seja, a convivência familiar é essencial, porque nela conhecemos os primeiros limites, exercitamos a disciplina, aprendemos a obediência, a tolerância e – tão importante quanto! – a contestação, o questionamento, a não aceitação de regras que nos parecem equivocadas ou injustas: a transgressão, enfim. Se há amor e confiança, pais e filhos hão de encarar as frequentes discordâncias e enfrentamentos como forma de aprendizado mútuo, oportunidade de, juntos, se fortalecerem para enfrentar as tantas contrariedades impostas pela vida. Assim, a meu ver, o que chamamos de transgressão de costumes nada mais é que um novo olhar sobre nós mesmos. Olhar que nasce da experiência cotidiana, da prática do diálogo, da curiosidade que nos faz querer saber mais e mais sobre nossos corpos, nossos sentimentos, nos pesquisando, nos revirando e nos vendo pelo avesso – processo que acontece na intimidade desse fabuloso laboratório chamado família.

O incesto ainda é um tabu muito forte em nossa sociedade, e é um dos temas centrais deste novo livro. Como foi a experiência de trabalhá-lo na ficção?

Em Os novos moradores, embora relevante, o tema do incesto se insere em contexto bem mais abrangente, que envolve as complexas questões dos relacionamentos familiares: são os arquivos secretos que todos guardamos. A necessidade de nos escondermos e, ao mesmo tempo, de sermos verdadeiros com os seres amados que nos acompanham – sejam os pais, os filhos, a mulher, o marido, os companheiros de estrada. A necessidade que sentimos de nos revelarmos por inteiro e a incapacidade de fazê-lo. Os conflitos e dramas que resultam desta contradição. E, ainda, nossas diferentes visões sobre o certo e o errado, o diálogo que se perde, o entendimento que, por vezes, parece impossível. Em sentido contrário, temos a tragédia familiar que é superada, o tabu que se quebra quando o amor prevalece, a força transformadora e libertadora do perdão. São todos esses temas e subtemas que costuram a trama do romance e lhe dão arremate. Assim, trabalho a questão do incesto. Sem julgamento antecipado, humanizando a relação dos irmãos Amanda e Estevão, que é vista pela essência do afeto que os une e não pela aparência.

“Os novos moradores” também lança luz ao poliamor e a outras possibilidades de configuração amorosa, que escapam às tradicionais. Sua literatura não se furta a viajar pelo passado, mas também encara temas caros ao mundo contemporâneo. O quanto a ficção é um instrumento eficaz para investigar o presente?

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Quem diz é Guimarães Rosa, em “Grande sertão: veredas”. O pensamento consta como uma das epígrafes do livro, porque traduz com perfeição o que penso a respeito das infinitas possibilidades de configuração amorosa. É inacreditável que, em pleno século XXI, ainda nos escandalizemos com formas de amar que, como você diz, escapam às tradicionais, enquanto que, na televisão, os noticiários e as sessões da tarde oferecem para os jovens os mais variados tipos de matanças e carnificinas, tudo muito natural, censura livre. Alguma coisa deve estar fora do lugar. Ademais, quem manda no amor? Quem poderá impor aos casais o modo de serem felizes e expressarem seus sentimentos? Acho que já é mais que tempo de respeitarmos nossas diferenças. E a ficção pode ser instrumento extremamente eficaz nesse processo de conscientização. Em meus dois romances anteriores “O arroz de Palma” e “Doce Gabito”, também há transgressões de costumes, mas igualmente inseridas em um contexto de afetividade, que nos leva a compreender e a aceitar o comportamento transgressor.

“Os novos moradores” acena em seu desfecho, para a possibilidade de um mundo melhor, mais franco e solidário. Nestes tempos tão turbulentos, o quanto é possível manter o otimismo?

A turbulência está no ser humano em qualquer tempo, os cenários é que mudam. E hoje, com as tecnologias de que dispomos, crimes, injustiças e horrores ficam bem mais visíveis, são expostos e divulgados imediatamente – o que não deixa de ser positivo. Sou otimista, mas com os pés no chão. Costumo usar uma imagem que é a seguinte: você tem uma parede pintada de branco, alguém vai com o dedo e faz um pequeno sujo. A área limpa é infinitamente maior que aquele mínimo ponto. Não importa. Nosso olhar irá direto para o que destoa e incomoda. Da mesma forma, possuímos muito mais qualidades que defeitos, mas nosso lado bom não aparece, não dá notícia. O que desperta o interesse alheio é o mal que nos habita. Assim, se analisarmos com isenção o ser humano, reconheceremos que temos nos esforçado e melhorado ao longo dos séculos. Um passo para trás; dois, para frente. Em “Os novos moradores”, aceno, de fato, para um futuro melhor. Apesar de eventuais recuos, acredito firmemente que as novas gerações serão sempre mais esclarecidas e, portanto, mais tolerantes e solidárias. Confio na vocação do ser humano para o crescente aprimoramento. Tendemos para a luz.

Propaganda veiculada nos cinemas do Rio de Janeiro por ocasião do lançamento do romance (Junho de 2017).