Íntimos, entram no meu quarto sem avisar. De madrugada, como quase sempre acontece. Só que desta vez vêm todos juntos, desordenadamente. Ignoram tempo e espaço, misturam enredos, tramas, histórias! Transmudam todos os gêneros!

É quando, no caos, acendo a luz da cabeceira. Sonolento, me esforço para entender o que se passa. Ajeito o travesseiro e me recosto na cama, esfrego, abro bem os olhos e espero. Inspiração, pesadelo ou o quê?

Às claras, eles se fortalecem, cercam-me por todos os lados, falam alto. Entusiasmados, em uníssono, repetem ainda mais contundentes: Nada de gêneros! Nada de romance, conto, crônica, poesia ou fábula separados! Nada de teatro sozinho lá no palco! De cinema só grudado lá na tela! Brincadeira coisa nenhuma, a conversa é para valer, insistem.

Mal posso acreditar. Como é possível? Antonio, Tia Palma, José Custódio, Maria Romana e todos os seus! Gabriela, o avô Gregório, tia Letícia, as meninas do casarão e até Gabito! Chegam ainda Cosme, Amanda, Estevão e os moradores das casas geminadas! Fugiram todos das páginas dos romances e foram ao encontro de seus companheiros de teatro e de cinema. Para quê? Pedir apoio para o pleito que me fazem agora reunidos.

Às três da manhã?! Enlouqueceram?! Quero é dormir!

Isadora e Maria, unha e carne como sempre, acham graça. Yumi, Massao e Luiz, coração na boca, vêm me dizer que ansiavam por este momento. Gonçalo, Anaïs, Henry, o Velho e os demais não me deixam apagar a luz, prometem se comportar, porque o que têm a dizer é mesmo sério. Davi, a mulher, o motorista e o trocador avalizam o discurso. Ponto final.

Tudo bem. Estou disposto a escutá-los, mas um de cada vez, e com alguma ordem, por favor. Concordam no ato porque a solução é rápida. Fração de segundo, o impensável acontece. Todos se fundem em um só personagem: eu diante de mim mesmo!

A voz? É a minha e é a deles! As emoções? São as minhas, as deles! Medos, anseios, alegrias, dúvidas, tudo nosso! Orgulhos, egoísmos, covardias, maldades, raivas, tudo em mim e tudo neles! Os desejos inconfessos, as sexualidades todas! Eu sou eles e eles sou eu! Neles, me vejo mil seres em um, mil vidas vividas ao mesmo tempo. Neles, me perco em quereres que não me dão sossego. O que resta de mim no meio de tantos? O que sobra para contar a meu respeito? E, ao fim, sem papel relevante, um figurino ao menos, como me apresento em público?

Fácil – ouço de imediato. É só arrancar os títulos originais, rebatizar outros, apagar referências, datas. Deixar que coração e cabeça me releiam jovem, maduro e velho – miscelânea de sentimentos sem disfarces. Revisitar ou reescrever antigos textos e deixar inéditos escaparem das gavetas. Trechos de peças que se transformam em contos. Parágrafos de romances que viram pequenas crônicas e até dedicatória. Poemas que se tornam fábulas, confissões, sinais de alerta. Ajustes, transplantes, transmutações. E, sobretudo, que eu assuma as falas atribuídas apenas a eles.

Respiro fundo. Penso e repenso. O que me pedem é prova que requer paciência e desapego. Mas assim será feito, prometo.
Agradecidos, eles me afagam, me beijam com um só coletivo beijo e, em silêncio, se vão todos.

Sem esforço, me levam pela mão – a que escrevo.

Espanto. A cama vazia. A luz ainda acesa e não me vejo.

Sem eles, sou ninguém.

Francisco Azevedo, janeiro de 2018